





Será que só eu acho estranha a degradação, gradativa, a assenhorear-se da cidade dita Invicta, mas que se vai deixando vencer, à medida que o cidadão é aprisionado em casa, não podendo sem risco sair fora de portas a desoras, onde há ruas onde é perigoso circular em horas tardias, onde as noitadas são reservadas, em ruas desertas, a bandos de noctívagos, que, começando por delitos tolerados (tolerados, até quando?!), escrevinhar nas paredes parvoíces, palavras de (des)ordem, mensagens de ensinamento e recrutamento de sócios na parvoeira, pintalgar casas particulares rabiscos com presunção de arte, danificando propriedade privada e pública, se iniciam no medir forças com a autoridade (sem autor nem actor de os meter na ordem), vagueando sem quefazeres (talvez sustentados na inactividade pelo rendimento mínimo sem trabalho mínimo, como contributo de nossos impostos para as tintas e danos que com elas nos fazem), enquanto outros cidadãos honestos, noite fora, labutam arduamente pelo pão dos filhos, como os profissionais que limpam até a sujeira que os moinantes fazem, num crescendo estranho, que, recentemente, avançou para a destruição sistemática de dezenas de contentores de saneamento de lixos, não falando da destruição de cabines telefónicas e da frequência de outras vandalizações e assaltos...
Nem os bancos escapam às ameaças (dos rabiati ou dos raiviati?!)
As ruas estão a despovoar-se; sem vizinhos clientes, o pequeno comércio definha.. . A quem agradará conviver neste ambiente?!
Acresce, a piorar, a falta de trabalho honesto, direito real para alguns, virtual para muitos, que enganam a fome e a falta de abrigo, escondendo-se do frio, da miséria e da falta de solidariedade, digo, de humanidade...sem família, sem dignidade, muitas vezes enxotados como refugo da Humanidade, madrasta que devora os filhos que julga inúteis!
Será que a crise só terá como alternativas, para alguns, mendigar ou roubar (Nihil habentes, omnia possidentes?!)?!
Que esta Páscoa de 2009 nos traga esperança de melhores dias...em que, em vez de dizermos ao outro oh, humano, digamos simplesmente oh, mano!
São pensamentos de um velho, desvergonhadamente saudosista de outrora (outra hora!), tempos em que aos meninos se liam as poesias de João de Deus (proscrito das “novas pedagogias” por ilustrados “pedagogos”...e com que resultados!):
“Minha mãe, quem é aquele?
– Minha mãe, quem é aquele
Pregado naquela cruz?
– Aquele, filho, é Jesus…
É a santa imagem d’Ele.
– E quem é Jesus? – É Deus!
– E quem é Deus? – Quem nos cria,
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os céus,
E veio ensinar à gente
Que todos somos irmãos
E devemos dar as mãos
Uns aos outros, irmãmente:
Todo amor, todo bondade!
– E morreu? – Para mostrar
Que a gente, pela verdade,
Se deve deixar matar” . João de Deus
Bem fez o Bispo do Porto, bem informado da miséria que grassa na Cidade, ao afirmou na sua Mensagem Pascala a necessidade de ser respeitado, a todas as pessoas, o direito de aceder ao trabalho, condição indispensável para a sua realização pessoal !
Menino e moço, na minha cidade natal, os miúdos (digo miúdos e não “putos”, que, em terras de Viriato, preferem ser chamados “filhos da luta” que de “filhos de mulher baldio”!), como os carros eram tão poucos, conhecíamos melhor os donos dos carros do que as respectivas marcas e matrículas. Uma pobre viatura, cujas longarinas acusavam desmedida curvatura, denununciava os tratos de polé que lhe dava o avantajado corpanzil de um dos donos felizardos!
Ainda se jogava futebol na rua, balisas improvisadas com duas pedras, distanciadas rigorosamente, com medida a pé, tendo os guarda-redes a dupla responsabilidade de impedir os golos e de vigiarem a interferência da polícia, campo controlado nas duas direcções.; na altura não havia árbitros! Ainda bem!
Jogo alternativo era o dos “polícias e ladrões”! Por aquelas ruelas da velha cidade, nos matávamos virtualmente! No início do jogo, a escolha entre os bandos era nada pacífica; depois quem perdia, por maioria de “mortos”, inexoravelmente virava “ladrão”! Era a desonra total!
Se fosse hoje...com a crise que por aí anda, os que ganhassem o jogo seriam os ladrões!